sexta-feira, 31 de julho de 2020

Como a maconha afeta o cérebro

Conheça os principais efeitos colaterais da Maconha

                                                                                               


                            
  Dr. Arthur Frazão
   

    


     



     




A maconha, também conhecida como cannabis ou marijuana, é um tipo de droga alucinógena que causa sensações consideradas agradáveis no momento do seu uso, como relaxamento aguçamento dos sentidos, euforia e alterações no nível de consciência.

Entretanto, estes efeitos acontecem às custas de alterações no desempenho de diversas funções cerebrais, interferindo no pensamento, atenção, concentração, memória, sentimentos, coordenação motora e capacidade intelectual, por exemplo.

 Além disso, tem-se observado que o uso contínuo da maconha também pode causar efeitos negativos em outros órgãos do organismo, muitos deles duradouros, mesmo após interrupção do uso.

1. Efeitos no cérebro

O princípio ativo da maconha, chamado de tetrahidro-cannabidiol, se liga a receptores cerebrais causando interferências no seu funcionamento. Os principais efeitos colaterais do seu uso crônico incluem:

  •          Dificuldades de aprendizado e memória;
  •          Apatia;
  •          Perda da motivação e da produtividade;
  •          Dor de cabeça;
  •          Irritabilidade;
  •          diminuição da coordenação motora;
  •          Alteração da capacidade visual.

Além disso, também podem ser provocados efeitos emocionais e psiquiátricos, como aumento das chances de ansiedade, depressão ataques de pânico, tentativas de suicídio e desenvolvimento de esquizofrenia. 

2. Efeitos no sistema digestivo

O uso da maconha provoca alterações na regulação da digestão, provocando náuseas, vômitos e dor abdominal, que podem piorar com o uso frequente.

3. Efeitos no sistema respiratório

No momento do uso, a maconha pode ter efeito dilatador dos brônquios, por relaxar os seus músculos. Entretanto, a fumaça inalada aos pulmões contém substâncias irritantes que podem causar uma intensa inflamação no sistema respiratório. Algumas das consequências são:

  •         Congestão nasal;
  •         Piora da asma;
  •         Bronquite;
  •         Infecções respiratórias frequentes.

Os usuários da maconha apresentam tosse e pigarros tanto quanto os fumadores de cigarro, e há indícios que também podem aumentar o risco de desenvolvimento de enfisema ou câncer pulmonar.

4. Efeitos no sistema cardiovascular

O uso da maconha provoca alterações nos batimentos cardíacos e na pressão arterial, que costumam ser passageiros. Entretanto, existem evidência que o uso crônico desta droga aumente o risco do desenvolvimento de doenças cardiovasculares, como infarto, AVC e insuficiência cardíaca. 

5. Efeitos no sistema reprodutor

O consumo de maconha aumenta as chances de infertilidade, tanto feminina quanto masculina, pelos seguintes motivos:

  •         Reduz os níveis de testosterona;
  •         Diminuição da libido;
  •         Produção de espermatozoides defeituosos, que não conseguem alcançar o óvulo;
  •         Afeta a capacidade de implantação do embrião no útero;
  •         Alterações no ciclo menstrual.

Isto provavelmente acontece pois os órgãos reprodutores têm alta concentração de receptores do princípio ativo da maconha, o que provoca a interferência no seu funcionamento com o uso crônico e excessivo da droga. 



Estes efeitos colaterais surgem geralmente quando a planta é utilizada indevidamente, sem orientação do médico e em quantidades exageradas, e sem ser na forma de remédios. Saiba mais sobre quando a maconha pode ser usada como Planta Medicinal em Maconha Medicinal


Um remédio que é feito a partir da maconha é o Canabidiol, um medicamento que tem as propriedades terapêuticas da maconha, mas que não tem o efeito viciante para o organismo que a planta tem.

No Brasil, não é possível comprar remédios feitos a partir de maconha, por falta de aprovação da Anvisa, porém estes podem ser comprados em outros países que aprovam a sua utilização como Estados Unidos, Canadá, Uruguai e Israel.



quinta-feira, 23 de julho de 2020

Álcool: Uso seguro, abuso e dependência

Você sabe qual a diferença do beber seguro, do uso abusivo e da dependência do álcool? 

Já parou para se perguntar se o fato de beber diariamente e  seu organismo não sentir os efeitos disso possa não ser porque ele é forte e sim porque está desenvolvendo uma tolerância cada vez maior e que isso poderá trazer sérios problemas no futuro?

Você sabe que o beber seguro do homem é diferente do beber seguro da mulher? 

Nesse vídeo com o Prof. Dr. Ronaldo Laranjeira, diretor da UNIAD (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas), você terá respostas para essas perguntas e muito mais. No caso de dependência, faça o melhor que puder por você mesmo, procure ajuda!






quinta-feira, 16 de julho de 2020

A Família que faz a diferença no enfrentamento ao abuso e dependência de Drogas - Parte 2

DANDO CONTINUIDADE AO TEXTO " A FAMÍLIA QUE FAZ A DIFERENÇA NO ENFRENTAMENTO AO ABUSO E DEPENDÊNCIA DE DROGAS" APRESENTAREI OS FATORES DE RISCO E PROTEÇÃO.

Laura Fracasso - Psicóloga Clínica

Parte 2    

Fatores de risco e proteção no cuidar e educar

É importante conhecer o potencial de risco e os fatores de proteção existentes na família porque podem contribuir para mudar o curso de um acontecimento.


Riscos

  • Pais abusadores ou dependentes, por seus exemplos de conduta;
  • Isolamento social entre os membros e segredos familiares;
  • Relações conflituosas ou excessivamente permissivas;
  • Falta de estímulo da família para os estudos, lazer e outras práticas laborais;
  • Ausência do elemento paterno, agressividade e relações disfuncionais;
  • Inexistência de diálogo e afetividade na comunicação entre os membros, acarretando resistência ao assunto e, portanto, ao tratamento;
  • Ausência e descontinuidade de critérios na aplicação de regras familiares e limites;
  • Desinteresse dos pais pelas atividades e conquistas dos filhos e na participação de seus sucessos e fracassos;
  • Tolerância dos pais em relação ao consumo de álcool e tabaco;
  • Falta de informação sobre as drogas;
  • Crises socioeconômicas;
  • Incoerência e incongruência dos pais quanto ao padrão educacional a ser adotado para os filhos;
  • Expectativas negativas em relação aos filhos, aos cônjuges e companheiros;
  • Pais que não fornecem um bom modelo social e que, portanto, não transmitem as normas e valores morais socialmente aceitos.

 Proteção

  • Vinculação familiar com o desenvolvimento de valores, boa interação entre os membros;
  • Compartilhamento de tarefas no lar;
  • Diálogo e troca de informações entre os membros sobre suas rotinas e práticas diárias;
  • Valorização de um padrão de vida saudável na família;
  • Laços afetivos significativos entre os membros;
  • Estímulo e valorização da educação formal;
  • Expectativas positivas em relação aos filhos e aos demais membros da família;
  • Predomínio de estilo compreensivo de vida sem autoritarismo ou permissividade, mas com limites;
  • Relação de confiança entre pais e filhos;
  • Manifestação de interesse dos pais pela vida dos filhos e participação nos sucessos e fracassos dos mesmos;
  • Presença e constância de critérios claros na aplicação de regras disciplinares e desenvolvimento de valores no ambiente familiar;
  • Presença dos pais como modelos positivos quanto às questões sociais e morais e cultivo de valores familiares;
  • Postura clara e assertiva quanto ao uso de drogas pelos membros da família.

QUESTÕES PARA OS PAIS RESPONDEREM E COMPARTILHAREM  ENTRE SI

  1. Escreva três qualidades que você mais admira em cada um dos seus filhos ou suas filhas.
  2. Escreva três limitações que causam preocupação com cada um dos seus filhos ou suas filhas e que requerem mais atenção.
  3. Quais são seus medos em relação aos filhos ou filhas?
  4. Já se sentiu mal sobre como os educa? O que fez quando se sentiu assim?
  5. O que você mais admira em si como pai ou mãe?
  6. Caso tenha um companheiro ou companheira, o que mais admira nessa pessoa como pai ou mãe?
  7. Com quem você conta quando não sabe lidar com seu filho ou sua filha?
  8. O que você gostaria de dizer aos outros pais a partir de sua experiência como pai ou mãe? Registre aqui  sua mensagem.

Espero que todos possam ter feito reflexões que os ajudem não apenas a lidar com as dificuldades do dia a dia como também a identificar e valorizar o que a família tem apresentado de pontos fortes.

 JUNGERMAN, Flávia S. e ZANELATTO, Neide A. Tratamento psicológico do usuário de maconha e seus familiares: um manual para terapeutas. São Paulo: Roca, 2007

Fonte: http://clinicalibertamente.com.br/a-familia-que-faz-a-diferenca-parte-2/


quinta-feira, 9 de julho de 2020

A Família que faz a diferença no enfrentamento ao abuso e dependência de Drogas – Parte I

A FAMÍLIA QUE FAZ A DIFERENÇA NO ENFRENTAMENTO AO ABUSO E DEPENDÊNCIA DE DROGAS: O QUE É PRECISO SABER PARA QUE A SUA SEJA UMA DELAS!

Laura Fracasso - Psicóloga Clínica



A sociedade tem passado por várias modificações o que, consequentemente, modifica também o conceito de FAMÍLIA.

“Família pode ser entendida como um conjunto de pessoas que fazem parte de um mesmo núcleo vivendo sob um mesmo teto, com pai e mãe trabalhando, ou como um conjunto maior englobando parentes próximos que vivem juntos, ou com filhos apenas com um dos pais, ou avós cuidando de seus netos, ou uma família reorganizada a partir de duas famílias, cujos cônjuges se separaram, ou ainda pessoas do mesmo sexo convivendo com ou sem filhos”. (JUNGERMAN, F. S. e ZANELATTO, N. A., 2007)

 Ainda hoje, há pessoas que julgam e agem preconceituosamente com famílias que não se encaixam no modelo tradicional. É comum ouvirmos frases do tipo: “Também, com uma família daquelas, não podia dar outra coisa…”, evidenciando os pré-julgamentos que são feitos constantemente. A influência das famílias é realmente importante, mas não se pode opinar sobre uma realidade que não se conhece com alguma profundidade. Ao falarmos de família devemos considerar a formação por laços de sangue, adoção, afeto e outros. O mais importante a ser considerado é que a família é fundamental para o cuidado e a proteção de seus membros.

Segundo Jungerman e Zanelatto (2007), vários trabalhos na literatura atual abordam a dependência de drogas como um fenômeno que afeta não somente o usuário, mas também seu sistema familiar, mostrando a importância do estudo do funcionamento relacional destas famílias.

 Não existe família perfeita!

 As famílias são diferentes entre si e cada uma apresenta dificuldades e capacidades próprias na construção da sua história. Enfrentam crises, conflitos e se desenvolvem conforme suas condições biopsicossociais, econômicas e espirituais. Cada membro lida a seu modo com os problemas, com os recursos que dispõem, com a participação na comunidade, os amigos, as pessoas e as instituições e serviços com os quais podem contar… A forma que cada família constrói para lidar com todas essas situações é importante para que possa cumprir seu papel de CUIDAR e EDUCAR.

É fato que, para algumas famílias, as dificuldades e situações de risco enfrentadas parecem maiores que seus recursos internos. É fundamental valorizar os pontos fortes e elucidar os pontos a melhorar, por mais difícil que seja o desafio vivenciado no momento.

O que é ser responsável por uma família nesta sociedade que nos traz inúmeros desafios no cotidiano?

“Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é” (Caetano Veloso)

Como diz a música, apenas o indivíduo sabe de suas experiências vividas, desafios, dificuldades, inseguranças, medos, inquietações e, por essa razão, também das suas possibilidades de crescimento.

 Quem nunca teve dificuldades para decidir a respeito de um pedido de um filho? E, depois de decidido, quem nunca teve dúvidas se a decisão tomada foi, realmente, a melhor? Estes dois questionamentos fazem parte da rotina de pais, mães e responsáveis que estão, de fato, comprometidos em CUIDAR e EDUCAR. Para tanto, não existe receita pronta, nem manual de instrução, mas podemos trazer algumas reflexões que podem ajudar e que devem ser feitas com todos os membros da família. A saber:

  • Seu papel é fundamental, tanto o de acolher e cuidar dos membros da família quanto o de estabelecer regras claras e coerentes;
  • Aproveite a sabedoria que você adquiriu ao longo de sua história! As experiências e as dificuldades vividas geram conhecimentos e habilidades para lidar com as várias situações que surgem na vida;
  • O afeto e a confiança na família são verdadeiros aliados para que os limites possam ser colocados de forma tranquila e construtiva;
  • Educar é também dizer “NÃO” na hora certa, explicando as razões da negativa. Filhos que compreendem que não podem ter tudo o que querem aprendem a lidar com frustrações. Filhos para os quais nada é negado não estarão preparados para as dificuldades da vida;
  • Alguns pais e ou responsáveis incluem na receita de educação e cuidado dos filhos excesso de proteção (superproteção) ou proteção de menos (negligência). Na superproteção, os pais acreditam que os filhos são frágeis e que, portanto, precisam ser poupados de tudo o que possa causar incômodo ou gerar dificuldades. Na negligência, os pais, por vários motivos, deixam de cuidar, de repreender ou de proteger quando necessário. Os dois extremos podem trazer muitos danos para a pessoa que está no processo de crescimento.
  • É fundamental reconhecer aquilo que os filhos fazem de bom, pois isso fortalece a autoestima deles. Portanto, elogie as conquistas e os bons comportamentos. Todo mundo gosta de ser reconhecido! Isso ajudará seu filho ou sua filha a confiar em si e na sua capacidade de realizar algo bom;
  • Evite comparações! Comparar não vai fazer seu filho ou sua filha se comportar como você quer. Comparações pode fazer com que a pessoa se sinta desvalorizada. Em alguns casos, esse sentimento pode provocar uma atitude contrária à esperada;

  • Procure informações sobre o que ocorre com o corpo e a mente na fase de desenvolvimento em que seu filho ou sua filha se encontra. Isso o ajudará a compreender suas ações, sentimentos e pensamentos. Ouvir a pessoa verdadeiramente, conversar com ela e tentar entender o seu ponto de vista é positivo para ela e importante para sua família como um todo.
Na próxima quinta, daremos continuidade nesse artigo onde Laura Fracasso publica fatores de risco e de proteção, apresentando algumas questões que se pode fazer em família.



  

terça-feira, 26 de novembro de 2019

Revolvendo o Solo da Recuperação

POR MARCELO RIBEIRO 24.11.2019



Chuvas torrenciais ininterruptas, meses a fio, para muito além da capacidade de absorção daquele terreno.  Alagamentos persistentes.  Desaparecimento da camada de húmus e da microfauna revolvedora do solo.  Certamente, esse estado de acúmulo de águas persistirá mesmo após o término das chuvas.

Aos poucos, o terreno alagado se converterá em uma gigantesca poça de lama e essa, em uma lâmina de aparência rígida, endurecida pela ação persistente e calcinante da luz solar.  Vem a craquelagem das placas: frestas úmidas vão aos poucos se desfazendo em terra e poeira as quais, com o passar do tempo, formam uma camada de terra seca, que vai puxando cada vez mais para a superfície a água que encharcou e se acumulou no solo.

Com o cair das chuvas esperadas da estação, que umidificam o solo no ritmo da natureza, os brotos de mato e gramíneas começam a enraizar timidamente no chão de terra. Logo adiante ele voltará a ser perfurado por minhocas e insetos construtores ou se converterá em berçário para larvas de todos os gêneros.  Ainda assim, em algumas situações será necessária a recuperação química e biológica desse solo, pela utilização de fertilizantes orgânicos ou de adubos minerais.

Após alguns ciclos de vida animal e vegetal, mesmo à custa de raízes filiformes, arbustos modestos e pequeníssimos insetos, novamente uma camada de húmus poderá se formar, ganhando consistência, até se converter em serrapilheira – uma camada generosa de material orgânico, em diferentes estágios de decomposição, por intermédio da qual os nutrientes finalmente voltarão a ser filtrados e retornarão ao solo de forma natural, tornando-o progressivamente mais fértil e, a cada estação, mais propício para ser revolvido e cultivado novamente.

Muitas pessoas acreditam – e infelizmente boa parte delas, profissionais da saúde – que a desintoxicação não passa do ato de se observar o usuário intoxicado por algumas horas no pronto-socorro, deitado numa cama, “tomando um sorinho na veia”.  Para eles, desintoxicar é, literalmente, deixar a “droga” sair do organismo.  Um grave equívoco. Isso é apenas e tão somente o término das “chuvas psicoativas torrenciais”. Quase a totalidade das substâncias psicoativas é eliminada do organismo em menos de vinte e quatro horas, mas os efeitos neurotóxicos e inflamatórios, bem como as neuroadaptações que o uso crônico provoca sobre o “solo cerebral e mental” não acabam com o raiar da abstinência.

A desintoxicação – apesar de não possuir um parâmetro de tempo preciso – se estende para além da ideia da mera interrupção do uso, para englobar, minimamente, um período inicial de resolução de sintomas de abstinência, no qual o cérebro começa a readaptar o seu funcionamento, sem a presença da droga.  Mesmo na ausência das síndromes de abstinência mais clássicas, como as do álcool e dos opioides, que duram em média de três a setes dias – de acordo com a gravidade da dependência – os dias que se sucedem à parada do uso, em geral, trazem a marca desse estado de amolecimento, da lama, do tédio, dos estados indiferenciados – com frequência, sintomas psiquiátricos desses primeiros tempos, de maneira isolada ou combinada, estruturam síndromes que se assemelham, mas não se comportam exatamente como os transtornos mentais classicamente descritos, são instáveis e propensas à labilidade, misturando algumas vezes mais de um tipo de transtorno, num verdadeiro mosaico psicopatológico.

Tais sintomas tendem à melhora – espontânea ou sob medicação – , conforme o estado psíquico do usuário em abstinência vai ganhando estabilidade, forma, se estruturando – são  as tais placas de barro.  Mas tudo é ainda muito frágil: há pouquíssimo espaço para se trabalhar conteúdos de natureza cognitiva ou profunda – pelo contrário, é o momento de se oferecer atividades suportivas, estruturadas em grupos motivacionais, de terapia-ocupacional, ou de mútua-ajuda.  Medicamentos auxiliam a resolução dos sintomas psiquiátricos primários ou secundários, que reduzem a vontade ou o comportamento de busca, nesse sistema nervoso emocionalmente lábil e ainda pouco capaz de articulações, e protegem o “solo cerebral”, favorecendo o processo de recuperação.

A desintoxicação deve se estender até esse período, em geral, entre quinze e trinta dias, podendo se alongar um pouco mais, nos casos de maior gravidade.  O modelo habitual se dá em enfermarias psiquiátricas, dentro da perspectiva multidisciplinar, voltada à construção de um diagnóstico que elucide a gravidade da dependência, as doenças clínicas-gerais e psiquiátricas associadas (comorbidades), os fatores de crise relacionados ao quadro atual, a motivação da pessoa para o tratamento e os fatores de proteção e risco vigentes, com ênfase na família e nas habilidades do indivíduo.  A desintoxicação também pode se dar ambulatorialmente, eventualmente com apoio de visitas domiciliares, residências terapêuticas, hospitais-dia e acompanhantes terapêuticos.

A fase de “formação do chão de terra” marca o retorno de um funcionamento mais articulado do psiquismo.  Mais uma vez, a pessoa voltou a ter uma “camada seca” estruturada, pré-frontal, capaz de oferecer uma interface entre o seu sistema nervoso “mais profundo” – mamífero e reptiliano – e as demandas socioculturais que o cercam.  É o momento em que o usuário que “só falava de droga”, aparentemente de maneira súbita, começa a ampliar o seu repertório social, a ter outros anseios, retomar assuntos antigos.  Com a chegada das “chuvas neuroquímicas fisiológicas”, juntamente com as novas conexões sinápticas, que brotam timidamente, novos padrões de comportamento começam a ser moldados, na forma de desejos e formulação de planos futuros, especialmente quando acontecem dentro de ambientes relacionados à cultura de recuperação.

Mas a estrutura cerebral desenvolvida até aqui ainda carece de capacidade inibitória, ou seja, está longe de resistir às investidas torrenciais e fissurentas do desejo de consumo.  Nesse contexto, qualquer retorno de chuvas psicoativas – sejam elas garoas ou tempestades – é potencialmente desastroso:  a estruturação cortical está começando a arriscar os seus primeiros brotos voltados para a ideia da recuperação e da mudança de estilo de vida. O sistema nervoso ainda se encontra “túrgido” de gatilhos que facilmente o levariam de volta ao consumo, não fossem as curvas-de-nível, as telas e coberturas e demais estratégias de blindagem e monitoramento – muitas vezes intensivo –, com o intuito de proteger o solo, enquanto ele próprio não vai criando sua camada de proteção.

A estruturação da serrapilheira, após ciclos sucessivos de objetivos e metas ora frustrados, ora aprendidos, ora atingidos – sempre substrato de amadurecimento –, marca a reconquista da autonomia, a partir da estruturação de um sistema de filtros que retira dos erros e acertos, bem  como das conquistas provenientes da abstinência, o substrato energético que fortalecerá o patrimônio mental da pessoa – e do seu processo de recuperação.
Marcelo Ribeiro, psiquiatra, membro do Programa de Pós-graduação do Departamento de Psiquiatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), docente do Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho (Uninove), diretor do Centro de Referência de Álcool, Tabaco e outras Drogas (Cratod) da Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo, presidente do Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas de São Paulo (Coned).



segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Reinserção Social - Retorno ao Mercado de Trabalho

      O dependente químico precisa de suporte em todos os sentidos, e, nesse novo caminho é essencial que ele seja tratado como os outros seres humanos, sem preconceitos e atitudes que, muitas vezes, o fazem se sentir à margem da sociedade. 
     A sua reinserção no mercado de trabalho é um recomeço e uma chance de uma nova vida. Com essa oportunidade, ele pode começar a reescrever sua história, focar no futuro e direcionar sua mente para novos projetos. 
     Dessa forma, a CT Terra Santa, está sempre buscando parcerias para oferecer aos nossos acolhidos diversos cursos profissionalizantes. Nesse último mês, nossos acolhidos em parceria com a Secretaria de Industria, Comercio e Agricultura de Colina e o SENAR, participaram de alguns cursos como: tratorista, manuseio e manutenção de serra elétrica e jardinagem.
      Esses cursos são realizados fora do ambiente da Comunidade Terapêutica, possibilitando assim a interação e o convívio social visando restabelecer os vínculos pessoais e sociais geralmente bem fragilizados. Essa reinserção social é uma etapa fundamental  e se inicia o mais breve possível, com avaliações de acordo com o Plano de Atendimento Singular de cada acolhido, que é construído ao longo do acolhimento com o apoio da equipe técnica - psicóloga, assistente social e conselheiro de referência -, juntamente com o acolhido e familiares. 
       Abaixo algumas fotos do Curso de Jardim, realizado nas dependências da Casa Assistencial Nosso Lar Amigos do Bem. O resultado não poderia ter sido melhor, ficou maravilhoso! Parabéns a todos os envolvidos! 

 



 

 






 

 


 



 



Observação: Todas as fotos tiveram seu direito de imagem autorizadas pelos acolhidos da CT.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O Devastador Vício do Álcool na Infância

   
Prevenção - Com Doutor Lotufo

     

     Quando o assunto é droga, muitos infelizmente se esquecem do álcool por não ser uma droga ilícita. No entanto, e até mesmo por essa razão, a substância acaba entrando mais facilmente no dia a dia das pessoas, de forma mais aceitável pela sociedade, incluindo até grupos familiares. Por isso a criança, que já possui uma maior dificuldade de distinguir o que é certo e errado, junto com a falta de informação sobre os malefícios do álcool, torna-se alvo fácil para o uso precoce dessa droga altamente prejudicial à saúde, que altera o estado de consciência e causa dependência. 

       Para falar sobre esse tema o Freemind entrevistou o assessor de direção do Hospital Universitário da USP, Dr. João Paulo Becker Lotufo. Doutor Lotufo, também conhecido como Doutor Bartô, é médico pediatra e coordenador do Projeto Antitabágico, além de ser autor de projetos de prevenção ao alcoolismo e tabagismo na infância e adolescência. Alguns de seus artigos estão em sua coluna no jornal e na rádio da USP sobre prevenção de drogas. Outros exemplos são: Projeto de Prevenção de Drogas Dr. Bartô e Projeto nas Escolas do Ensino Fundamental e Médio. 

     Dr Lotufo sabe o risco acentuado do alcoolismo causar dependência e lesões cerebrais: "O cérebro do jovem ainda não está formado. Isto acontece na verdade, aos 25 anos. Mas até os 21 há quase totalidade do amadurecimento cerebral" explica o médico ao falar sobre a restrição do consumo de álcool para menores de 21 anos nos  EUA. Infelizmente, até por uma questão cultural, jovens vêm bebendo cada vez mais cedo como uma "passagem para a vida adulta". Dr. Lotufo lamenta que muitos deles ignoram os riscos da bebida como o primeiro passo para começar a se envolver com outras drogas e acabem consumindo álcool em grande quantidade. 

     A publicidade na mídia também tem influenciado muitas crianças e adolescentes a consumirem droga. O médico relata que o consumo de cigarro diminuiu de 30 para 10% após a restrição da publicidade nos meios de comunicação e afirma: É fundamental a retirada de propaganda de bebida alcoólica da mídia, principalmente entre 6 e 21 horas". A propaganda é voltada para o jovem e causa um grande efeito negativo na sociedade. A propaganda não é feita para se divulgar as marcas e sim para que o jovem comece a beber cada vez mais cedo e cada vez mais. Este não é um problema só brasileiro, mas mundial. 

     Além da mídia, outro fator que certamente influencia é o meio social, começando pela família. Ser filho de alcoólatra ou ter membros familiares portadores de alcoolismo coloca os jovens em maior risco de desenvolver problemas com o uso de bebidas, uma vez que o exemplo de adultos bebendo em demasia ou bebendo com muita frequência ou valorizando o ato de consumir bebida alcoólica influencia os jovens. Em uma escola de classe A de São Paulo, proibiu-se a cerveja em festa junina e os pais fizeram passeata na porta da escola exigindo a mudança na decisão. Outro ponto é a genética positiva para o alcoolismo. 

     "Quando se tem alcoólicos na família como eu e minha esposa temos, é necessário alertar os filhos para tomarem cuidado com a bebida alcoólica, pois a chance de um deles partir para este lado é maior pela genética positiva na família" explica Lotufo. 

Cuidados Com Outras Drogas

      Quanto mais cedo o adolescente começar a beber, maior é a chance de passar de drogas lícitas para drogas  ilícitas. E quanto mais cedo ele experimentar drogas (incluindo o álcool), mais propenso estará para se tornar um dependente químico. Para evitar que nossos filhos entrem para o mundo das drogas, Dr. Lotufo fala sobre a importância de estarmos junto do adolescente, dando o exemplo e não sendo permissivos ou distantes, mas buscando saber com quem ele está, quais lugares frequenta e o que anda fazendo: "não ser o pai AMIGÃO: pai tem que ser pai, tem que impor limites, tem que dizer não!". O pediatra ainda alerta que quando o pai não sabe responder essas questões básicas sobre o filho, pode ser um grande sinal de alerta. "A postura dos pais é muito importante" enfatiza. 

      Além das drogas ilícitas, é importante ficar atento a algumas drogas sutis que vem entrando na sociedade e recebendo grande aceitação. Esse é o caso do Narguilé, um grande mal na adolescência, que chega a ser mais ofensivo ao organismo do que o cigarro. "Uma hora de narguilé equivale a 100 cigarros consumidos" compara o médico. 

O Que Fazer

         A prevenção é a ação mais importante do combate contra as drogas, mas também devemos nos preocupar com o momento em que se descobre que um familiar já experimentou alguma droga. Dr
Lotufo contou o caso de um pai que decidiu tirar o seu filho da escola, após ter sido chamado pela diretora, junto com outros pais, por terem descoberto uma rede de drogas naquela instituição de ensino. O pai acreditava que seu filho tivesse aprendido a usar drogas naquele lugar e estava convencido que a mudança de estabelecimento seria uma boa providência. Porém, Doutor Lotufo questiona para onde ele iria levá-lo, pois "qual é a escola pública ou privada, que não tem esse tipo de problema?".

       O problema por trás disso é que muitas vezes, os pais esperam que a atitude deva ser tomada pela escola, quando a maior e prévia intervenção devem ser sempre dos próprios pais. "Um outro pai disse que não conversava com seu filho há 6 meses, pois haviam brigado. A família perdeu seu valor. Temos que resgatá-lo", aconselha. 

       Doutor Lotufo explica que quando um filho ou um familiar já se encontra viciado, deve-se procurar ajuda médica e psicológica para lidar com tudo isto. Precisa-se compreender a razão do problema. O médico pediatra tem um programa de aconselhamento breve sobre drogas na consulta pediátrica, ampliando o conhecimento da família sobre o problema do álcool e drogas. "Eu tenho feito uma consulta de orientação para famílias quando descobrem que os filhos estão usando drogas. Tento mostrar os riscos que estão correndo sem uma conversa ampla e honesta, sem a presença dos pais". 
      Para ajudar pais e educadores o site do Doutor Lotufo (www.drbarto.com.br) conta com materiais de leitura para crianças e adolescentes.

Fonte: Revista Freemind - Edição trimestral: janeiro/fevereiro/março - Circulação: 13 de março de 2.018