sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Um Olhar sobre a Codependência na Dependência Química

 Por   Samuel de Souza Ferreira (Psicólogo) 

André Luiz Granjeiro (Psicólogo, especialista em DP)


Via de regra, o dependente químico se vale da sedução para manipular o ambiente, de modo que tais meios justifiquem um imutável fim: a manutenção do uso, bem como busca compulsória pelos "prazeres" provocados pela substância na qual se adicta. De acordo com o dicionário online Dicio (2020), barganhar significa vender alguma coisa de maneira fraudulenta, geralmente prejudicando quem efetua a compra; trapacear [...] [pejorativo]. Acordo que se efetiva fraudulentamente por meio de favores, benefícios mútuos ou práticas enganosas. Quando essas habilidades são desenvolvidas ou mesmo aprimoradas, podem se tornar hábito, o dependente químico não medirá esforços para que o ambiente e as pessoas que o circundam se vejam envoltos em um contexto de manipulação, barganha, dependência e codependência. 

À guisa de uma breve síntese histórica, caberia retomar a ideia de que o termo codependência surgiu na década de 70, a partir da análise do comportamento das pessoas que "cuidavam" de familiares alcoólicos, acompanhando-os aos grupos de autoajuda, criados especificamente para atenderem as necessidades de recuperação desta população. Observou-se, no entanto, que as compulsões, sejam por quaisquer substâncias ou circunstâncias, afetam não apenas o indivíduo adicto, mas todo o núcleo familiar, e em decorrência desta rede de prejuízos, as compulsões foram caracterizadas como "doenças familiares". Como a compulsão trata da inabilidade de algumas pessoas de lidarem com seus impulsos excessivos, sucumbindo ao descontrole de suas ações adictas, é natural, é natural que gerem desordem e instabilidade no meio familiar (TOZATI, 2015, p. 1). 

Muito do que o codependente vivencia está diretamente relacionado com falta de informação independente da classe social e, é claro, acompanhamento profissional qualificado. Ainda que ele sabe algo sobre o manejo de um toxicômano, já se é sabido que fatores como vínculo afetivo podem impedir que o ente envolvido conceba um prisma de reais possibilidades de abordagem/manejo efetivo das demandas presentes. Não raramente familiares codependentes trazem elevada carga de baixa autoestima, caracterizada pela falta de amor próprio e outras dificuldades, como de negação e imposição de limites, sentimentos de ilusão, sofrimento, ansiedade, angústia, medo, impotência, fracasso, sensação de vazio e o desconhecimento dos próprios sentimentos (MORAES et al. 2009, p 4).

Os problemas dos dependentes de álcool e outras drogas não são sofridos em isolamento, pois virtualmente todo dependente químico afeta outros - especialmente os que vivem próximos a eles. Aliás, a dependência química é comumente chamada de doença familiar. Costuma existir um envolvimento tão grande e tão visível entre os familiares e os problemas e sintomas do doente, que o termo Codependência foi inventado para descrever tal situação. Embora não existam duas famílias iguais, ou que respondem à dependência química da mesma forma, há temas, sentimentos e comportamentos comuns que prevalecem em quase toda a família que abriga um paciente (MARINHO, SOUZA, TEIXEIRA, 2015 p. 6, apud KRUPNICK, 1995, p. 31). 

Com a finalidade de manutenção do uso, o dependente químico adota habilidades como a barganha. Pode utilizar a internação como pretexto para desintoxicar, "dar um tempo" ou "ter um fôlego" para retomar ao uso compulsivo e "isso acontece porque o paciente tende a manipular/manobrar bastante o familiar fragilizado emocionalmente para ir embora"   (JESUS, 2016, p. 167) sem concluir com  aproveitamento genuíno o período de internação. De maneira consciente, opera sobre vontades a ele alheio, faz bom uso da ideia de "cura", utiliza a esperança dos familiares e essa manipulação só vem a tona quando em curto espaço de tempo o dependente químico recai pesadamente, é apenas no após que é revelado a nulidade de todo voto de confiança. 

Com a família despreparada e sem saber lidar com a demanda do dependente, passa a efetuar negociações e construir idealizações sobre o fim do sofrimento. Nesta fase, ainda não há a real noção da gravidade do problema (MARINHO, SOUZA, TEIXEIRA, 2015, p. 6). Não obstante, realiza chantagem emocional, manipula contextos e pessoas para que elas o olhem com pena, possuem uma retórica sedutora, narra fatos mirabolantes, (no entanto, convincentes). Um caos onde impera contextos de iminente violação física, ameaça de forma aberta ou velada incutindo medo. É capaz de variar o repertório fazendo promessas que jamais irá cumprir. Neste contexto, a adicção se mantém porque existe um desejo de uso. Embora seja corriqueiro que adotem estes e outros repertórios comportamentais, o ato da barganha como ferramenta de manipulação não é regra, pois, quando existe a genuína vontade de busca de tratamento, o adicto se vê "limpo" nem que seja por apenas um dia. 

O medo é um dos sentimentos mais presentes e marcantes na vida dessas pessoas [...], ele ficou associado à violência contra o outro  a si próprio, ao abandono, ao medo de cometer erros, de ter vida própria e de que aconteça algo ruim com o dependente químico. A violência física resulta do efeito do uso das drogas em alguns dependentes químicos, ocasionando medo nos familiares e em outras pessoas com as quais convivem. Participantes como mães e esposa disseram que sentiam medo de serem agredidas fisicamente pelos familiares dependentes químicos (MORAES et. al., 2009 p. 4). 

Pode-se dizer que a dependência emocional é definida como um transtorno aditivo, no qual o indivíduo necessita do outro para manter seu equilíbrio emocional (BUTION, WECHSLER, 2016, p. 1). Assim como o toxicômano, o familiar traz consigo elevado nível de ambivalência, ansiedade e instabilidade que culminam em uma forma de "fissura" proximal onde a relação é pautada por barganhas e manipulações de ambas as partes. Trata-se de uma relação condicional em que faltas são cometidas de parte a parte até que se tenha claro dependente e codependente. Isso quando, por questões situacionais, ambos alteram a própria posição agregando complexidade tanto no cotidiano em termos relacionais, como em contexto terapêutico quando existente. Tem-se, em tal contexto, um ambiente familiar que fatalmente converter-se-á em contexto sintomático repleto em negações. Mesmo quem não bebe sofre com efeitos do alcoolismo, vítima e agressor em ferrenha busca por dominação buscando saciar seus anseios, pessoas não dependentes de drogas ilícitas vivenciando efeitos e fissuras da abstinência ainda que não sejam em si mesmas. A dependência emocional foi definida como um padrão crônico de demandas afetivas insatisfeitas, que buscam ser atendidas por meio de relacionamentos interpessoais caracterizados por um apego patológico (BUTION, WECHSLER, 2016, p. 3, apud: MORAL, SIRVENT, 2008). 

Reconhecendo a importância da família na formação de seus membros, sendo elemento principal na construção de uma rede social de apoio ao dependente químico, a equipe de saúde mental precisa estar atenta ao funcionamento dessa rede, criando laços de parceria, fundamentais e imprescindíveis no tratamento do dependente químico e no desenvolvimento de relações mais sadias e/ou significativas. Dessa forma, a integração da família na dinâmica de atenção ao adicto pode facilitar sua recuperação, proporcionando modos de enfrentamento que resultarão em melhor qualidade de vida (MORAES et al., 2009 p. 2). 

Em muitas famílias, questões relacionadas à dependência química são tratadas como tabu. Mesmo quando existe evidência do envolvimento de um ente com drogas, ocorre uma forma de racionalização, camuflagem, negação, até chegar o dia em que não seja mais possível ocultar. è quando a dependência já está em um nível avançado. São claros objetos sintomáticos e codependentes: a falta de tato e repertório. Isso faz com que a questão se torne complexa e outros ganham subênfase. Podemos dizer que a família acaba se tornando mantenedora do problemas em tais contextos (MORAES et al., 2009, p. 5)

Um movimento comum da família que tem em seu seio um dependente químico é a fuga. Souza subdivide este movimento em cinco etapas. E elas são: negação, barganha, depressão, agressão e aceitação. Estas etapas são denominadas de As Cinco Fases da Codependência (MARINHO, SOUZA, TEIXEIRA, 2015, p. 6, apud SOUZA, 2010). 

Na primeira fase - negação - a família depara-se com algo terrível e inimaginável, a dependência química de um ente querido. Em primeiro momento há uma espécie de negação da realidade. Os indivíduos que constituem esta família são tomados pelo desejo de indignação e dúvida em relação à dependência química do adicto. Na segunda fase - barganha - a família, ainda despreparada e sem saber lidar com a demanda do dependente passa a efetuar negociações com o adicto e construir idealizações sobre o fim do sofrimento. Nesta fase ainda não há a real noção da gravidade do problema. A terceira fase - depressão - constituída de uma tristeza imensa como produto da então formulação da  crítica familiar, desvenda e traz aos olhos a noção do tamanho da proporção dos fatos. É nesta fase que o adicto pode simplesmente não conseguir lidar com esse sofrimento e se afundar ainda mais chegando, inclusive, ao suicídio, ou tomar ciência e aceitar um tratamento especializado.  Na quarta fase - agressão - todas as fichas foram gastas no intuito de interromper a autodestruição do sujeito. É nesta fase que a família, já cansada e sem recursos emocionais dá início a uma série de tomadas de decisões punitivas com medidas desesperadas a fim de resolver a situação. É na quinta fase - aceitação - que a família finalmente começa a construir e aceitar a situação do adicto, dando início a diálogos impossíveis de serem conduzidos outrora. Esta fase é caracterizada pelo início da saída do movimento de Codependência Familiar (MARINHO, SOUZA, TEIXEIRA, 2015, p. 6, apud SOUZA, 2010). 

Outra postura recorrente presente no codependente é a ideia de que deve atuar como salvador, no entanto, este ato de ajuda "salvadora" é diferente do ato de amor, bondade, compaixão e ajuda genuínos, pois além de estar ancorado numa necessidade do codependente, tende a fragilizar e tornar a pessoa a ser salva como impotente, transformando-a em vítima (TOZATI, 2015, p. 4). 

Cabe salientar que este artigo teve como uma de suas finalidades abordar, além de assuntos relacionados à dependência e a codependência, o importante papel da família quando o assunto é dependência química. Por abranger questões de natureza multifatorial, é preciso que a família atue como um todo, sólida unidade, atuando de forma producente, até porque neste processo "seu bem nunca é inteiramente bom. Seu mal jamais totalmente mau. Mesclam-se bem e mal, diabólico e simbólico, insensatez e sabedoria, cuidado essencial e descuido fatal... Devemos exercer a compaixão para com nós mesmos" (MORAES et al., 2009, p. 6, apud BOFF, 2004, p. 159). Em meio ao caminho e suas ambivalências e nuances do viver, cabe caminhar rente ao bom, sensato, sábio e cuidadoso passo ainda que simbólicos nos mantendo rentes a nossa melhor versão. 

André Luiz Granjeiro: Psicólogo clínico (online, presencial e domiciliar) CRP 06/144060, Especialista em Dependência Química pela UNIFESP/UNIAD, membro da Associação Brasileira de Estudos de Álcool e outras Drogas (ABEAD), Especialista em avaliação psicológica pela Kroton Sumaré, Idealizador do curso em acompanhamento terapêutico( AT) em dependência química (DQ) teórico e prático, presencial em campinas.

Nota: As referências bibliográficas citadas podem ser encontradas na fonte do artigo citada abaixo.





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