terça-feira, 26 de novembro de 2019

Revolvendo o Solo da Recuperação

POR MARCELO RIBEIRO 24.11.2019



Chuvas torrenciais ininterruptas, meses a fio, para muito além da capacidade de absorção daquele terreno.  Alagamentos persistentes.  Desaparecimento da camada de húmus e da microfauna revolvedora do solo.  Certamente, esse estado de acúmulo de águas persistirá mesmo após o término das chuvas.

Aos poucos, o terreno alagado se converterá em uma gigantesca poça de lama e essa, em uma lâmina de aparência rígida, endurecida pela ação persistente e calcinante da luz solar.  Vem a craquelagem das placas: frestas úmidas vão aos poucos se desfazendo em terra e poeira as quais, com o passar do tempo, formam uma camada de terra seca, que vai puxando cada vez mais para a superfície a água que encharcou e se acumulou no solo.

Com o cair das chuvas esperadas da estação, que umidificam o solo no ritmo da natureza, os brotos de mato e gramíneas começam a enraizar timidamente no chão de terra. Logo adiante ele voltará a ser perfurado por minhocas e insetos construtores ou se converterá em berçário para larvas de todos os gêneros.  Ainda assim, em algumas situações será necessária a recuperação química e biológica desse solo, pela utilização de fertilizantes orgânicos ou de adubos minerais.

Após alguns ciclos de vida animal e vegetal, mesmo à custa de raízes filiformes, arbustos modestos e pequeníssimos insetos, novamente uma camada de húmus poderá se formar, ganhando consistência, até se converter em serrapilheira – uma camada generosa de material orgânico, em diferentes estágios de decomposição, por intermédio da qual os nutrientes finalmente voltarão a ser filtrados e retornarão ao solo de forma natural, tornando-o progressivamente mais fértil e, a cada estação, mais propício para ser revolvido e cultivado novamente.

Muitas pessoas acreditam – e infelizmente boa parte delas, profissionais da saúde – que a desintoxicação não passa do ato de se observar o usuário intoxicado por algumas horas no pronto-socorro, deitado numa cama, “tomando um sorinho na veia”.  Para eles, desintoxicar é, literalmente, deixar a “droga” sair do organismo.  Um grave equívoco. Isso é apenas e tão somente o término das “chuvas psicoativas torrenciais”. Quase a totalidade das substâncias psicoativas é eliminada do organismo em menos de vinte e quatro horas, mas os efeitos neurotóxicos e inflamatórios, bem como as neuroadaptações que o uso crônico provoca sobre o “solo cerebral e mental” não acabam com o raiar da abstinência.

A desintoxicação – apesar de não possuir um parâmetro de tempo preciso – se estende para além da ideia da mera interrupção do uso, para englobar, minimamente, um período inicial de resolução de sintomas de abstinência, no qual o cérebro começa a readaptar o seu funcionamento, sem a presença da droga.  Mesmo na ausência das síndromes de abstinência mais clássicas, como as do álcool e dos opioides, que duram em média de três a setes dias – de acordo com a gravidade da dependência – os dias que se sucedem à parada do uso, em geral, trazem a marca desse estado de amolecimento, da lama, do tédio, dos estados indiferenciados – com frequência, sintomas psiquiátricos desses primeiros tempos, de maneira isolada ou combinada, estruturam síndromes que se assemelham, mas não se comportam exatamente como os transtornos mentais classicamente descritos, são instáveis e propensas à labilidade, misturando algumas vezes mais de um tipo de transtorno, num verdadeiro mosaico psicopatológico.

Tais sintomas tendem à melhora – espontânea ou sob medicação – , conforme o estado psíquico do usuário em abstinência vai ganhando estabilidade, forma, se estruturando – são  as tais placas de barro.  Mas tudo é ainda muito frágil: há pouquíssimo espaço para se trabalhar conteúdos de natureza cognitiva ou profunda – pelo contrário, é o momento de se oferecer atividades suportivas, estruturadas em grupos motivacionais, de terapia-ocupacional, ou de mútua-ajuda.  Medicamentos auxiliam a resolução dos sintomas psiquiátricos primários ou secundários, que reduzem a vontade ou o comportamento de busca, nesse sistema nervoso emocionalmente lábil e ainda pouco capaz de articulações, e protegem o “solo cerebral”, favorecendo o processo de recuperação.

A desintoxicação deve se estender até esse período, em geral, entre quinze e trinta dias, podendo se alongar um pouco mais, nos casos de maior gravidade.  O modelo habitual se dá em enfermarias psiquiátricas, dentro da perspectiva multidisciplinar, voltada à construção de um diagnóstico que elucide a gravidade da dependência, as doenças clínicas-gerais e psiquiátricas associadas (comorbidades), os fatores de crise relacionados ao quadro atual, a motivação da pessoa para o tratamento e os fatores de proteção e risco vigentes, com ênfase na família e nas habilidades do indivíduo.  A desintoxicação também pode se dar ambulatorialmente, eventualmente com apoio de visitas domiciliares, residências terapêuticas, hospitais-dia e acompanhantes terapêuticos.

A fase de “formação do chão de terra” marca o retorno de um funcionamento mais articulado do psiquismo.  Mais uma vez, a pessoa voltou a ter uma “camada seca” estruturada, pré-frontal, capaz de oferecer uma interface entre o seu sistema nervoso “mais profundo” – mamífero e reptiliano – e as demandas socioculturais que o cercam.  É o momento em que o usuário que “só falava de droga”, aparentemente de maneira súbita, começa a ampliar o seu repertório social, a ter outros anseios, retomar assuntos antigos.  Com a chegada das “chuvas neuroquímicas fisiológicas”, juntamente com as novas conexões sinápticas, que brotam timidamente, novos padrões de comportamento começam a ser moldados, na forma de desejos e formulação de planos futuros, especialmente quando acontecem dentro de ambientes relacionados à cultura de recuperação.

Mas a estrutura cerebral desenvolvida até aqui ainda carece de capacidade inibitória, ou seja, está longe de resistir às investidas torrenciais e fissurentas do desejo de consumo.  Nesse contexto, qualquer retorno de chuvas psicoativas – sejam elas garoas ou tempestades – é potencialmente desastroso:  a estruturação cortical está começando a arriscar os seus primeiros brotos voltados para a ideia da recuperação e da mudança de estilo de vida. O sistema nervoso ainda se encontra “túrgido” de gatilhos que facilmente o levariam de volta ao consumo, não fossem as curvas-de-nível, as telas e coberturas e demais estratégias de blindagem e monitoramento – muitas vezes intensivo –, com o intuito de proteger o solo, enquanto ele próprio não vai criando sua camada de proteção.

A estruturação da serrapilheira, após ciclos sucessivos de objetivos e metas ora frustrados, ora aprendidos, ora atingidos – sempre substrato de amadurecimento –, marca a reconquista da autonomia, a partir da estruturação de um sistema de filtros que retira dos erros e acertos, bem  como das conquistas provenientes da abstinência, o substrato energético que fortalecerá o patrimônio mental da pessoa – e do seu processo de recuperação.
Marcelo Ribeiro, psiquiatra, membro do Programa de Pós-graduação do Departamento de Psiquiatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), docente do Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho (Uninove), diretor do Centro de Referência de Álcool, Tabaco e outras Drogas (Cratod) da Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo, presidente do Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas de São Paulo (Coned).



segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Reinserção Social - Retorno ao Mercado de Trabalho

      O dependente químico precisa de suporte em todos os sentidos, e, nesse novo caminho é essencial que ele seja tratado como os outros seres humanos, sem preconceitos e atitudes que, muitas vezes, o fazem se sentir à margem da sociedade. 
     A sua reinserção no mercado de trabalho é um recomeço e uma chance de uma nova vida. Com essa oportunidade, ele pode começar a reescrever sua história, focar no futuro e direcionar sua mente para novos projetos. 
     Dessa forma, a CT Terra Santa, está sempre buscando parcerias para oferecer aos nossos acolhidos diversos cursos profissionalizantes. Nesse último mês, nossos acolhidos em parceria com a Secretaria de Industria, Comercio e Agricultura de Colina e o SENAR, participaram de alguns cursos como: tratorista, manuseio e manutenção de serra elétrica e jardinagem.
      Esses cursos são realizados fora do ambiente da Comunidade Terapêutica, possibilitando assim a interação e o convívio social visando restabelecer os vínculos pessoais e sociais geralmente bem fragilizados. Essa reinserção social é uma etapa fundamental  e se inicia o mais breve possível, com avaliações de acordo com o Plano de Atendimento Singular de cada acolhido, que é construído ao longo do acolhimento com o apoio da equipe técnica - psicóloga, assistente social e conselheiro de referência -, juntamente com o acolhido e familiares. 
       Abaixo algumas fotos do Curso de Jardim, realizado nas dependências da Casa Assistencial Nosso Lar Amigos do Bem. O resultado não poderia ter sido melhor, ficou maravilhoso! Parabéns a todos os envolvidos! 

 



 

 






 

 


 



 



Observação: Todas as fotos tiveram seu direito de imagem autorizadas pelos acolhidos da CT.

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

O Devastador Vício do Álcool na Infância

   
Prevenção - Com Doutor Lotufo

     

     Quando o assunto é droga, muitos infelizmente se esquecem do álcool por não ser uma droga ilícita. No entanto, e até mesmo por essa razão, a substância acaba entrando mais facilmente no dia a dia das pessoas, de forma mais aceitável pela sociedade, incluindo até grupos familiares. Por isso a criança, que já possui uma maior dificuldade de distinguir o que é certo e errado, junto com a falta de informação sobre os malefícios do álcool, torna-se alvo fácil para o uso precoce dessa droga altamente prejudicial à saúde, que altera o estado de consciência e causa dependência. 

       Para falar sobre esse tema o Freemind entrevistou o assessor de direção do Hospital Universitário da USP, Dr. João Paulo Becker Lotufo. Doutor Lotufo, também conhecido como Doutor Bartô, é médico pediatra e coordenador do Projeto Antitabágico, além de ser autor de projetos de prevenção ao alcoolismo e tabagismo na infância e adolescência. Alguns de seus artigos estão em sua coluna no jornal e na rádio da USP sobre prevenção de drogas. Outros exemplos são: Projeto de Prevenção de Drogas Dr. Bartô e Projeto nas Escolas do Ensino Fundamental e Médio. 

     Dr Lotufo sabe o risco acentuado do alcoolismo causar dependência e lesões cerebrais: "O cérebro do jovem ainda não está formado. Isto acontece na verdade, aos 25 anos. Mas até os 21 há quase totalidade do amadurecimento cerebral" explica o médico ao falar sobre a restrição do consumo de álcool para menores de 21 anos nos  EUA. Infelizmente, até por uma questão cultural, jovens vêm bebendo cada vez mais cedo como uma "passagem para a vida adulta". Dr. Lotufo lamenta que muitos deles ignoram os riscos da bebida como o primeiro passo para começar a se envolver com outras drogas e acabem consumindo álcool em grande quantidade. 

     A publicidade na mídia também tem influenciado muitas crianças e adolescentes a consumirem droga. O médico relata que o consumo de cigarro diminuiu de 30 para 10% após a restrição da publicidade nos meios de comunicação e afirma: É fundamental a retirada de propaganda de bebida alcoólica da mídia, principalmente entre 6 e 21 horas". A propaganda é voltada para o jovem e causa um grande efeito negativo na sociedade. A propaganda não é feita para se divulgar as marcas e sim para que o jovem comece a beber cada vez mais cedo e cada vez mais. Este não é um problema só brasileiro, mas mundial. 

     Além da mídia, outro fator que certamente influencia é o meio social, começando pela família. Ser filho de alcoólatra ou ter membros familiares portadores de alcoolismo coloca os jovens em maior risco de desenvolver problemas com o uso de bebidas, uma vez que o exemplo de adultos bebendo em demasia ou bebendo com muita frequência ou valorizando o ato de consumir bebida alcoólica influencia os jovens. Em uma escola de classe A de São Paulo, proibiu-se a cerveja em festa junina e os pais fizeram passeata na porta da escola exigindo a mudança na decisão. Outro ponto é a genética positiva para o alcoolismo. 

     "Quando se tem alcoólicos na família como eu e minha esposa temos, é necessário alertar os filhos para tomarem cuidado com a bebida alcoólica, pois a chance de um deles partir para este lado é maior pela genética positiva na família" explica Lotufo. 

Cuidados Com Outras Drogas

      Quanto mais cedo o adolescente começar a beber, maior é a chance de passar de drogas lícitas para drogas  ilícitas. E quanto mais cedo ele experimentar drogas (incluindo o álcool), mais propenso estará para se tornar um dependente químico. Para evitar que nossos filhos entrem para o mundo das drogas, Dr. Lotufo fala sobre a importância de estarmos junto do adolescente, dando o exemplo e não sendo permissivos ou distantes, mas buscando saber com quem ele está, quais lugares frequenta e o que anda fazendo: "não ser o pai AMIGÃO: pai tem que ser pai, tem que impor limites, tem que dizer não!". O pediatra ainda alerta que quando o pai não sabe responder essas questões básicas sobre o filho, pode ser um grande sinal de alerta. "A postura dos pais é muito importante" enfatiza. 

      Além das drogas ilícitas, é importante ficar atento a algumas drogas sutis que vem entrando na sociedade e recebendo grande aceitação. Esse é o caso do Narguilé, um grande mal na adolescência, que chega a ser mais ofensivo ao organismo do que o cigarro. "Uma hora de narguilé equivale a 100 cigarros consumidos" compara o médico. 

O Que Fazer

         A prevenção é a ação mais importante do combate contra as drogas, mas também devemos nos preocupar com o momento em que se descobre que um familiar já experimentou alguma droga. Dr
Lotufo contou o caso de um pai que decidiu tirar o seu filho da escola, após ter sido chamado pela diretora, junto com outros pais, por terem descoberto uma rede de drogas naquela instituição de ensino. O pai acreditava que seu filho tivesse aprendido a usar drogas naquele lugar e estava convencido que a mudança de estabelecimento seria uma boa providência. Porém, Doutor Lotufo questiona para onde ele iria levá-lo, pois "qual é a escola pública ou privada, que não tem esse tipo de problema?".

       O problema por trás disso é que muitas vezes, os pais esperam que a atitude deva ser tomada pela escola, quando a maior e prévia intervenção devem ser sempre dos próprios pais. "Um outro pai disse que não conversava com seu filho há 6 meses, pois haviam brigado. A família perdeu seu valor. Temos que resgatá-lo", aconselha. 

       Doutor Lotufo explica que quando um filho ou um familiar já se encontra viciado, deve-se procurar ajuda médica e psicológica para lidar com tudo isto. Precisa-se compreender a razão do problema. O médico pediatra tem um programa de aconselhamento breve sobre drogas na consulta pediátrica, ampliando o conhecimento da família sobre o problema do álcool e drogas. "Eu tenho feito uma consulta de orientação para famílias quando descobrem que os filhos estão usando drogas. Tento mostrar os riscos que estão correndo sem uma conversa ampla e honesta, sem a presença dos pais". 
      Para ajudar pais e educadores o site do Doutor Lotufo (www.drbarto.com.br) conta com materiais de leitura para crianças e adolescentes.

Fonte: Revista Freemind - Edição trimestral: janeiro/fevereiro/março - Circulação: 13 de março de 2.018
          

domingo, 11 de fevereiro de 2018

Dia do Currículo

         Nesta sexta feira, dia 09/02, foi um dia muito importante para alguns de nossos acolhidos. Foi dia de sentar com a Assistente Social Patrícia e juntos construírem seus currículos, visando a reincersão no mercado de trabalho.  Cada um dos acolhidos estão num momento diferente do seu processo terapêutico individual. 
     Um está terminando sua caminhada na Terra Santa e já está pronto para buscar novas oportunidades no mercado de trabalho, buscando assim colocar em prática tudo que aprendeu nos 6 meses que esteve conosco, visando alcançar os objetivos que ele próprio traçou durante a construção de seu projeto de vida realizado  juntamente com seus conselheiros, assistente social e psicóloga.      
           O outro está saindo para sua segunda ressocialização, onde ficará uma semana na sua casa com seus familiares, e aproveitará esse tempo para distribuir seus currículos, visando oportunidades de emprego para quando terminar sua caminhada daqui 30 dias. 
           
           











Que esse seja o início de uma novo tempo para eles!

Obs: a divulgação das imagens foram autorizadas por escrito pelos acolhidos. 

Oficina de Artesanato em Madeira

         Nas últimas semanas alguns acolhidos com conhecimento de artesanato em madeira, tem dividido seu conhecimento, com seus companheiros de casa. Resultado: aprendizado, momentos de descontração, ajuda mútua, empoderamento, perspectivas de geração de renda após sua saída da CT e, sem duvida nenhuma, trabalhos lindos.  Todo o artesanato feito na CT com o objetivo de aprendizado, pertencem ao próprio acolhido que pode vendê-lo posteriormente, ou na sua saída ou durante sua ressocialização, gerando renda pra ele e sua família.