POR MARCELO RIBEIRO 24.11.2019
Chuvas torrenciais
ininterruptas, meses a fio, para muito além da capacidade de
absorção daquele terreno. Alagamentos persistentes. Desaparecimento
da camada de húmus e da microfauna
revolvedora do solo. Certamente, esse estado de acúmulo de águas
persistirá mesmo após o término das chuvas.
Aos poucos,
o terreno alagado se converterá em uma gigantesca poça de
lama e essa, em uma lâmina de aparência rígida,
endurecida pela ação persistente e calcinante da luz
solar. Vem a craquelagem das placas: frestas úmidas vão aos poucos se desfazendo em terra e
poeira as quais, com o passar do tempo, formam uma camada de terra seca, que
vai puxando cada vez mais para a superfície a água que encharcou
e se acumulou no solo.
Com o cair
das chuvas esperadas da estação, que umidificam o solo no ritmo da natureza, os
brotos de mato e gramíneas começam a enraizar timidamente no chão de
terra. Logo adiante ele voltará a ser perfurado por minhocas e insetos construtores ou se converterá em
berçário para larvas de todos os gêneros. Ainda assim, em algumas situações será necessária a recuperação
química e biológica desse solo, pela utilização de fertilizantes orgânicos ou
de adubos minerais.
Após alguns
ciclos de vida animal e vegetal, mesmo à custa de raízes filiformes, arbustos
modestos e pequeníssimos insetos, novamente uma camada de húmus poderá se
formar, ganhando consistência, até se converter em serrapilheira – uma
camada generosa de material orgânico, em
diferentes estágios de decomposição, por intermédio da qual os nutrientes
finalmente voltarão a ser filtrados e retornarão ao solo de forma natural,
tornando-o progressivamente mais fértil e, a cada estação, mais propício para
ser revolvido e cultivado novamente.
Muitas
pessoas acreditam – e infelizmente boa parte delas,
profissionais da saúde – que a desintoxicação
não passa do ato de se observar o usuário intoxicado por algumas horas no
pronto-socorro, deitado numa cama, “tomando um sorinho na
veia”. Para eles, desintoxicar é, literalmente, deixar a “droga”
sair do organismo. Um grave equívoco. Isso é apenas e tão
somente o término das “chuvas psicoativas torrenciais”. Quase a totalidade das substâncias psicoativas é
eliminada do organismo em menos de vinte e quatro horas, mas os efeitos neurotóxicos e inflamatórios, bem como as
neuroadaptações que o uso crônico provoca sobre o “solo cerebral e
mental” não acabam com o raiar da abstinência.
A desintoxicação – apesar de não possuir um parâmetro de tempo preciso – se estende
para além da ideia da mera interrupção do uso, para englobar, minimamente, um
período inicial de resolução de sintomas de abstinência, no qual o cérebro
começa a readaptar o seu funcionamento, sem a presença da droga. Mesmo
na ausência das síndromes de abstinência mais clássicas, como as do álcool e dos opioides, que duram em média de três a setes
dias – de acordo com a gravidade da dependência – os dias que se sucedem à parada do uso, em geral, trazem a marca
desse estado de amolecimento, da lama, do tédio, dos estados indiferenciados –
com frequência, sintomas psiquiátricos desses primeiros tempos, de maneira
isolada ou combinada, estruturam síndromes que se assemelham, mas não se
comportam exatamente como os transtornos mentais classicamente descritos, são
instáveis e propensas à labilidade, misturando algumas vezes mais de um tipo de
transtorno, num verdadeiro mosaico psicopatológico.
Tais sintomas
tendem à melhora – espontânea ou sob medicação – , conforme o
estado psíquico do usuário em abstinência vai ganhando estabilidade, forma, se
estruturando – são as tais placas de barro. Mas tudo é ainda muito
frágil: há pouquíssimo espaço para se trabalhar conteúdos de natureza cognitiva
ou profunda – pelo contrário, é o momento de se oferecer atividades suportivas,
estruturadas em grupos motivacionais, de terapia-ocupacional, ou de mútua-ajuda.
Medicamentos auxiliam a resolução dos sintomas psiquiátricos primários ou
secundários, que reduzem a vontade ou o comportamento de busca, nesse sistema
nervoso emocionalmente lábil e ainda pouco capaz de articulações, e protegem o
“solo cerebral”, favorecendo o processo de recuperação.
A
desintoxicação deve se estender até esse período, em geral, entre quinze
e trinta dias, podendo se alongar um pouco
mais, nos casos de maior gravidade. O modelo
habitual se dá em enfermarias psiquiátricas, dentro da perspectiva
multidisciplinar, voltada à construção de um diagnóstico que elucide a
gravidade da dependência, as doenças clínicas-gerais e psiquiátricas associadas
(comorbidades), os fatores de crise relacionados ao quadro atual, a motivação
da pessoa para o tratamento e os fatores de proteção e risco vigentes, com
ênfase na família e nas habilidades do indivíduo. A desintoxicação também
pode se dar ambulatorialmente, eventualmente com apoio de visitas domiciliares,
residências terapêuticas, hospitais-dia e acompanhantes terapêuticos.
A fase de
“formação do chão de terra” marca o retorno de um funcionamento mais articulado
do psiquismo. Mais uma vez, a pessoa voltou a ter uma “camada seca” estruturada,
pré-frontal, capaz de oferecer uma interface entre o seu sistema nervoso “mais
profundo” – mamífero e reptiliano – e as demandas
socioculturais que o cercam. É o momento em que o usuário que “só
falava de droga”, aparentemente de maneira súbita, começa
a ampliar o seu repertório social, a ter
outros anseios, retomar assuntos antigos. Com a chegada das “chuvas
neuroquímicas fisiológicas”, juntamente com as novas conexões sinápticas, que
brotam timidamente, novos padrões de comportamento começam a ser moldados, na
forma de desejos e formulação de planos futuros, especialmente quando acontecem
dentro de ambientes relacionados à cultura de recuperação.
Mas a
estrutura cerebral desenvolvida até aqui ainda carece de capacidade inibitória,
ou seja, está longe de resistir às investidas torrenciais e fissurentas
do desejo de consumo. Nesse contexto, qualquer retorno de chuvas
psicoativas – sejam elas garoas ou tempestades – é potencialmente
desastroso: a estruturação cortical está começando a arriscar os seus
primeiros brotos voltados para a ideia da recuperação e da mudança de estilo de
vida. O sistema nervoso ainda se encontra “túrgido” de
gatilhos que facilmente o levariam de volta ao consumo, não fossem as curvas-de-nível, as telas e coberturas e demais
estratégias de blindagem e monitoramento – muitas vezes intensivo –, com o
intuito de proteger o solo, enquanto ele próprio não vai criando sua camada de
proteção.
A estruturação da serrapilheira, após ciclos
sucessivos de objetivos e metas ora frustrados, ora aprendidos, ora atingidos –
sempre substrato de amadurecimento –, marca a reconquista da autonomia, a
partir da estruturação de um sistema de filtros que retira dos erros e acertos,
bem como das conquistas provenientes da abstinência, o substrato
energético que fortalecerá o patrimônio mental da pessoa – e do seu processo de
recuperação.
Marcelo
Ribeiro, psiquiatra, membro do Programa de Pós-graduação
do Departamento de Psiquiatra da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp),
docente do Curso de Medicina da Universidade Nove de Julho (Uninove), diretor
do Centro de Referência de Álcool, Tabaco e outras Drogas (Cratod) da
Secretaria do Estado da Saúde de São Paulo, presidente do Conselho Estadual de
Políticas sobre Drogas de São Paulo (Coned).
