Prevenção - Com Doutor Lotufo
Quando o assunto é droga, muitos infelizmente se esquecem do álcool por não ser uma droga ilícita. No entanto, e até mesmo por essa razão, a substância acaba entrando mais facilmente no dia a dia das pessoas, de forma mais aceitável pela sociedade, incluindo até grupos familiares. Por isso a criança, que já possui uma maior dificuldade de distinguir o que é certo e errado, junto com a falta de informação sobre os malefícios do álcool, torna-se alvo fácil para o uso precoce dessa droga altamente prejudicial à saúde, que altera o estado de consciência e causa dependência.
Para falar sobre esse tema o Freemind entrevistou o assessor de direção do Hospital Universitário da USP, Dr. João Paulo Becker Lotufo. Doutor Lotufo, também conhecido como Doutor Bartô, é médico pediatra e coordenador do Projeto Antitabágico, além de ser autor de projetos de prevenção ao alcoolismo e tabagismo na infância e adolescência. Alguns de seus artigos estão em sua coluna no jornal e na rádio da USP sobre prevenção de drogas. Outros exemplos são: Projeto de Prevenção de Drogas Dr. Bartô e Projeto nas Escolas do Ensino Fundamental e Médio.
Dr Lotufo sabe o risco acentuado do alcoolismo causar dependência e lesões cerebrais: "O cérebro do jovem ainda não está formado. Isto acontece na verdade, aos 25 anos. Mas até os 21 há quase totalidade do amadurecimento cerebral" explica o médico ao falar sobre a restrição do consumo de álcool para menores de 21 anos nos EUA. Infelizmente, até por uma questão cultural, jovens vêm bebendo cada vez mais cedo como uma "passagem para a vida adulta". Dr. Lotufo lamenta que muitos deles ignoram os riscos da bebida como o primeiro passo para começar a se envolver com outras drogas e acabem consumindo álcool em grande quantidade.
A publicidade na mídia também tem influenciado muitas crianças e adolescentes a consumirem droga. O médico relata que o consumo de cigarro diminuiu de 30 para 10% após a restrição da publicidade nos meios de comunicação e afirma: É fundamental a retirada de propaganda de bebida alcoólica da mídia, principalmente entre 6 e 21 horas". A propaganda é voltada para o jovem e causa um grande efeito negativo na sociedade. A propaganda não é feita para se divulgar as marcas e sim para que o jovem comece a beber cada vez mais cedo e cada vez mais. Este não é um problema só brasileiro, mas mundial.
Além da mídia, outro fator que certamente influencia é o meio social, começando pela família. Ser filho de alcoólatra ou ter membros familiares portadores de alcoolismo coloca os jovens em maior risco de desenvolver problemas com o uso de bebidas, uma vez que o exemplo de adultos bebendo em demasia ou bebendo com muita frequência ou valorizando o ato de consumir bebida alcoólica influencia os jovens. Em uma escola de classe A de São Paulo, proibiu-se a cerveja em festa junina e os pais fizeram passeata na porta da escola exigindo a mudança na decisão. Outro ponto é a genética positiva para o alcoolismo.
"Quando se tem alcoólicos na família como eu e minha esposa temos, é necessário alertar os filhos para tomarem cuidado com a bebida alcoólica, pois a chance de um deles partir para este lado é maior pela genética positiva na família" explica Lotufo.
Cuidados Com Outras Drogas
Quanto mais cedo o adolescente começar a beber, maior é a chance de passar de drogas lícitas para drogas ilícitas. E quanto mais cedo ele experimentar drogas (incluindo o álcool), mais propenso estará para se tornar um dependente químico. Para evitar que nossos filhos entrem para o mundo das drogas, Dr. Lotufo fala sobre a importância de estarmos junto do adolescente, dando o exemplo e não sendo permissivos ou distantes, mas buscando saber com quem ele está, quais lugares frequenta e o que anda fazendo: "não ser o pai AMIGÃO: pai tem que ser pai, tem que impor limites, tem que dizer não!". O pediatra ainda alerta que quando o pai não sabe responder essas questões básicas sobre o filho, pode ser um grande sinal de alerta. "A postura dos pais é muito importante" enfatiza.
Além das drogas ilícitas, é importante ficar atento a algumas drogas sutis que vem entrando na sociedade e recebendo grande aceitação. Esse é o caso do Narguilé, um grande mal na adolescência, que chega a ser mais ofensivo ao organismo do que o cigarro. "Uma hora de narguilé equivale a 100 cigarros consumidos" compara o médico.
O Que Fazer
A prevenção é a ação mais importante do combate contra as drogas, mas também devemos nos preocupar com o momento em que se descobre que um familiar já experimentou alguma droga. Dr
Lotufo contou o caso de um pai que decidiu tirar o seu filho da escola, após ter sido chamado pela diretora, junto com outros pais, por terem descoberto uma rede de drogas naquela instituição de ensino. O pai acreditava que seu filho tivesse aprendido a usar drogas naquele lugar e estava convencido que a mudança de estabelecimento seria uma boa providência. Porém, Doutor Lotufo questiona para onde ele iria levá-lo, pois "qual é a escola pública ou privada, que não tem esse tipo de problema?".
O problema por trás disso é que muitas vezes, os pais esperam que a atitude deva ser tomada pela escola, quando a maior e prévia intervenção devem ser sempre dos próprios pais. "Um outro pai disse que não conversava com seu filho há 6 meses, pois haviam brigado. A família perdeu seu valor. Temos que resgatá-lo", aconselha.
Doutor Lotufo explica que quando um filho ou um familiar já se encontra viciado, deve-se procurar ajuda médica e psicológica para lidar com tudo isto. Precisa-se compreender a razão do problema. O médico pediatra tem um programa de aconselhamento breve sobre drogas na consulta pediátrica, ampliando o conhecimento da família sobre o problema do álcool e drogas. "Eu tenho feito uma consulta de orientação para famílias quando descobrem que os filhos estão usando drogas. Tento mostrar os riscos que estão correndo sem uma conversa ampla e honesta, sem a presença dos pais".
Para ajudar pais e educadores o site do Doutor Lotufo (www.drbarto.com.br) conta com materiais de leitura para crianças e adolescentes.
Fonte: Revista Freemind - Edição trimestral: janeiro/fevereiro/março - Circulação: 13 de março de 2.018